Cadeiras com escudo frontal

O texto que se segue é severamente extenso, mas está cheio de informação importante que precisa de chegar aos pais!
Pf, continuem a ler.

A segurança rodoviária infantil não é uma moda!

As pessoas que tentam transmitir esta importância batem constantemente no muro dos pais que rejeitam a informação e, dizem que é uma moda, passageira. 
Na maioria das vezes, deixamos a conversa argumentando que não é moda, é pura física. 
Não é nem será uma moda passageira, nem tão pouco queremos de alguma forma impor uma crença que devem aceitar cegamente. Nós oferecemos os dados, os estudos que suportam estes argumentos.

Nenhuma criança deveria morrer ou ficar com lesões irreversíveis após um acidente rodoviário por utilizar um sistema de retenção que é inadequado e inseguro, com dados convincentes. Infelizmente, isto não é bem assim e, crianças que deveriam sair ilesas de acidentes, estão a morrer e a ficar gravemente feridas para o resto das suas vidas, apesar dos seus pais terem comprado a melhor cadeira de acordo com os testes independentes.

Um caso muito conhecido, talvez não para todos, mas para a grande maioria dos pais com interesse neste tema, é o caso do Gabriel. Gabriel, el vikingo!
Este menino de apenas 2 anos, teve um acidente rodoviário e sofreu uma decapitação interna, além disso, ficou paraplégico. Após uma árdua luta de 7 meses, o Gabriel faleceu. 
Ele viajava numa cadeira muito conhecida, com escudo frontal que reteve o seu torso, mas não lhe segurou/protegeu a cabeça/pescoço. 
A cadeira que os pais lhe compraram, ficou em 1º lugar nos testes de segurança, pois era isso que importava para aquela família, o sistema de retenção mais seguro possível. 
Como o Gabriel, existem mais casos espalhados pelo mundo. Talvez o do Gabriel seja mais conhecido por ter acontecido no nosso país irmão.

É importante que se conheça a verdade que não chega aos pais, pela parte das lojas, instituições relacionadas com a segurança rodoviária, pelas próprias marcas. Foi imposto o peso da certeza e, recomendam e admitem que é mais seguro viajar em contra marcha, mas a maioria comunica de forma vaga, disseminada e contraditória, ignorando os detalhes vitais que impedem que os pais tenham informações completas e verdadeiras, para decidir qual é o melhor sistema de retenção.

Em 2015, nenhuma criança morreu num acidente rodoviário na Noruega. Ali, as crianças viajam em contra marcha no mínimo até aos 4 anos. 
Na Suécia, pais pioneiro da contra marcha, as crianças viajam desta forma no mínimo até aos 4 anos e, normalmente até aos 5/6 anos, quando por peso e altura já não cabem nas cadeiras em contra marcha e, já podem viajar em cadeiras a favor da marcha com o cinto de segurança.
Os países escandinavos que adotaram esta medida, têm a taxa de mortalidade infantil em acidentes rodoviários mais baixa do mundo.

O pescoço das crianças com menos de 4 anos não está ossificado e não resiste à força da inércia de um impacto frontal.
Em acidentes frontais e traseiros entre automóveis, os ocupantes que viajam a favor da marcha são empurrados para a frente pela inércia do movimento. Uma criança pequena mantém o torso preso à cadeira por arnês ou escudo, mas a cabeça saí disparada aplicando sobre o pescoço uma força que este ainda não consegue suportar por não estar ossificado.

Existem cadeiras auto que permitem viajar em contra marcha até aos 5/6 ou mais anos, mas dependendo da estatura da criança, há quem diga que não são seguras, sejam pais, bloguistas, ou lojas – “lojas especializadas”.
Algumas destas cadeiras têm o selo Plus Test – já falado numa publicação anterior – o teste mais exigente a nível mundial. Na Suécia e na Noruega usam-nas, quase unicamente, e em Portugal a procura também já é muita, felizmente.
Cá, sofremos a contradição de organizações que aconselham que as crianças viajem em contra marcha, mas classificam estas cadeiras como inseguras e colocam no topo as cadeiras a favor da marcha.

Em 2016, últimos dados disponibilizados, apenas 90% das famílias portuguesas utilizava sistemas de retenção para as crianças.
Aproximadamente metade dos sistemas de retenção apresentavam erros de instalação/utilização. Quer isto dizer que menos de 45% das crianças é protegida devidamente. 
Cerca de 10% da população transporta as crianças sem qualquer sistema de retenção ou ao colo.

No nosso país, quase todas as crianças viajam a favor da marcha assim que deixam o grupo 0+, o famoso ovinho.
Se compararmos este dado com a inexistente taxa de mortalidade infantil nos países onde as crianças viajam maioritariamente em contra marcha, a força da evidencia leva a crer que em Portugal, as crianças deveriam de viajar em contra marcha durante mais tempo!
Teria a sua lógica se imitássemos as medidas de segurança de uma sociedade com cultura em segurança rodoviária, muito anos luz à nossa frente.

Não queremos assustar os pais com a ideia de que todas as cadeiras a favor da marcha são inseguras, pois a partir de certa altura/peso – 135cm/25kg, cadeira que permite contra marcha durante mais tempo – não há outra forma. 
Haverá sempre um período de transição em que eles não terão altura suficiente para usar apenas o cinto de segurança numa posição segura e, precisarão de um sistema de retenção conhecido como cadeiras 2/3. Permitem que se sentem a uma altura correta para que o cinto de segurança não os fira no pescoço.
Estas cadeiras são obrigatoriamente a favor da marcha, mas não têm o risco de reter o torso e atirar a cabeça, já que neste sistema de retenção, o que prende a criança, é o cinto de segurança.

Falando de bens em concreto, as cadeiras no sentido da marcha mais inseguras do mercado são cadeiras com escudo frontal, com designação de almofada – como se fosse uma peça protetora feita de penas onde as crianças podem dormir. É na realidade uma peça rígida coberta de material acolchoado – como as cadeiras normais – que prende a criança à cadeira pelo abdómen. 
Caiu em desuso pelos anos 90 mas algumas marcas recuperaram essa forma de prender as crianças e, vendem-nas para os pais como o sistema mais seguro – apoiados por algumas entidades. 
As medições mostram que a pressão abdominal gerada pelas cadeiras com escudo é superior aos limites estabelecidos seguros nos estudos da C.E, portanto, estes sistemas não podem sequer ser aprovados pela normativa I-size, que estabelece limites de pressão abdominais mais rigorosos que a norma R44/04. 
Apresentam também o risco de ejeção, daí não serem legais em alguns países – após processos e sentenças depois de mortes e lesões graves em crianças.

Num acidente real, frontal, o nosso automóvel levanta do chão, pelo menos as rodas traseiras, e podemos ver isso através das provas realizadas pelo EuroNCAP – claro que irá depender da velocidade. 
Se virmos os crash test das provas destas cadeiras, a carcaça do automóvel está amarrada ao trilho, não funcionando como um automóvel real.

Este salto que o automóvel dá aquando da colisão, comprova casos de ejeção em que a criança não é bloqueada pela dita almofada de retenção e, é arremessada contra o teto e outras partes do automóvel. 
Nas entidades independentes, é um erro logístico ao realizarem os testes… O único problema aqui, é que ao saberem disto, continuam a colocar estas cadeiras auto no topo.

Em 2012, Philip Beillas publicou sobre a pressão abdominal em dummies infantis: “Abdominal Pressure Twin Sensors (APTS) for Q dummies.” Para a realização deste estudo, adicionaram-se sensores de pressão abdominal aos dummies, e mostrou-se que os sistemas de retenção com almofada frontal geram uma pressão abdominal superior a 2 bares em dummies Q3 – crianças de 3 anos.

Em 2013, numa conferência internacional, celebrada todos os anos pelo departamento dos transportes dos estados unidos, apresentou-se “Analysis of the Performance of different architectures of forward facing CRS with integral restraint system”. Aqui recomendou-se que o limite de pressão abdominal para crianças com 3 anos, os dummies Q3, fosse de 1.13 bares. Neste estudo, existe um resumo de várias provas realizadas com cadeiras que usam escudo frontal, com dummies Q3 equipados com um sensor de pressão abdominal… As pontuações máximas obtidas foram de 1.8/2.1 e 2.7 bares – todas acima dos limites recomendados.

Em 2014 foi apresentado um estudo, onde são comparados os testes realizados pelas entidades independentes e pelo EuroNCAP, sendo a diferença de resultados com base no carro de teste. Este estudo conclui que os sistemas de retenção com escudo frontal, testado com dummies Q1, sofreram uma expulsão completa numa prova e expulsão parcial em duas provas, incluindo o impacto de cabeça no teto ou assento dianteiro.
Quando realizado com dummie Q1.5, a falta de retenção foi observável. Com dummies Q3, na fase de ressalto, existe o impacto da cabeça no teto e pressão abdominal mais elevada do que a criança consegue tolerar.

Em 2016, um projeto relacionado com os parâmetros de seguridade que deve exigir na norma I-size, recomenda que o limite de pressão abdominal seja de apenas 1.2 bares. Neste projeto, está incluído um gráfico que relaciona a pressão abdominal sofrida pelos dummies com o risco de lesão grave. Olhando o gráfico, podemos ver que 1.2 bares seria cerca de 20% de possibilidade de sofrer lesão grave, e com os 2 bares do projeto de Philip Beillas, essa possibilidade aumenta para 95%.

A Norma I-size, publicada em 2016, fixa os limites em 1.2 bares para dummie Q1.5 e 1bar para dummie Q3. Este tipo de cadeira auto nem sequer pode ser aprovada pela norma I-size.

Uma norma de homologação define uma série de requisitos que o produto deve seguir para a superar. Como noutros produtos, os sistemas de retenção também devem superar os testes de homologação para que a sua venda seja praticável. Uma homologação de cadeiras auto deve definir requisitos rigorosos, que sejam baseados em medições detalhadas e realistas para garantir que todas as cadeiras que superem os testes, sejam seguras. Infelizmente, nenhuma das duas normas presentes na U.E estabelece requisitos que garantam cadeiras seguras. 
Cabe aos pais fazer as suas pesquisas, informarem-se junto de verdadeiros especialistas e lojas especializadas, com interesse na segurança das crianças.

As crianças em Portugal não viajam seguras porque os pais são vítimas de desinformação severa.

Fontes: 
https://www-esv.nhtsa.dot.gov/…/files/Session%205%20Oral.pdf
https://www2.unece.org/…/CRS-58-02e_Recommendations_for_set…
http://www.eevc.net
http://casper-project.eu/
https://www.unece.org/…/t…/doc/2014/wp29grsp/GRSP-55-39e.pdf
Apsi
Fundação Mapfre

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